In Rainbows – Radiohead*
(2007)
1. 15 Step
3. Nude
5. All I Need
6. Faust Arp
7. Reckoner
10. Videotape
In Rainbows é um álbum de perguntas. 15 Step já dá a chave: “How come I end up where I started?”¹ É estranho como um álbum pode ser tão suspirante. Ouvir a voz do Thom Yorke por si só cantando determinado tipo de música é, já, uma experiência de outro mundo, mas o In Rainbows é muito experimental e carrega uma atmosfera mágica em seu entorno.
É uma angústia muito grande. O álbum faz você ficar nesse arremesso de lá pra cá, com angústias, catarses e suspiros alternados – ou, muitas vezes, combinados, como é o caso de 15 Step – tocando assuntos muito complicados para uma mente conturbada. Ouvi-lo requer querê-lo e estar consciente do que está fazendo, porque é uma experiência muito forte. Bodysnatchers tem aquela coisa de uma cabeça enlouquecida, uma cabeça que não suporta mais a limitação do homem no mundo absurdo; mas eis que, em determinado momento, a agonia se torna iluminação, e a guitarra absurdamente suja torna-se limpa, com um arranjo mais prolongado, e, ainda que o problema não esteja resolvido, há a infinita percepção de estar vivo (acho que estar vivo é um grande prêmio de dificuldades – sentir dor é prova de que se sente algo). E a dor se torna libertação. Rock n Roll.

Thom Yorke
Mas se Bodysnatchers é assim, Jigsaw Falling Into Place arrebata o espírito. É toda catarse de angústia. Não há recompensa, porque a dor tem aquele clima apocalíptico do riff amedrontador. Videotape na seqüência é para fechar o caixão, ainda que sejam completamente diferentes.
Mas, mesmo com todas essas questões, é um álbum muito positivo. O espírito desse álbum talvez resida em Reckoner². Reckoner é de uma iluminação, com uma harmonia humanística. Falo isto num sentido mais de altruísmo, como algo dedicado (“to all human beings”³) a todos os que respiram, mesmo (e não falo só dos vivos, pois os mortos também respiram). Com ou sem motivos, é uma mensagem muito importante, que não reside numa simples autoajuda: é o próprio mistério da vida, a recompensa máxima. Não é conformidade, insisto.
Falar do In Rainbows é muito difícil, mas é uma necessidade. Não é difícil por ser um esforço, mas sim porque fica sempre a sensação de que ele é muito maior do que qualquer coisa que eu diga. E não é por uma pretensa superioridade frente a outros álbuns, mas sim por um emaranhado de sensações surpreendentes. Cada vez que o ouço por completo, descubro coisas novíssimas.
Claro que ele possui suspiros muito bonitos, não necessariamente alegres ou felizes, mas não tristes. São suspiros, momentos em que há a contemplação: o caso de All I Need e Faust Arp. E House of cards tem aquele gostinho levemente doce, que quase faz salivar. Mas das três destaco a Faust Arp, com um final sublime, preparando para a seqüência milagrosa de Reckoner. Ouvir o álbum na ordem é uma coisa muito importante.

Sapecaram.
É um álbum triste, sim. Conheço quem diga que não, mas é impossível negar que pelo menos metade dele é triste. E a arte triste não é repulsiva, não é um culto à tristeza, não se ouve para entristecer (embora isto aconteça muitas vezes). Em primeiro lugar porque a experimentação se torna muito mais mágico-sensitiva e de autoconhecimento que de entristecimento. Em segundo lugar porque a arte que expressa coisas antes inexpressivas em nós, ajuda-nos a nos resolver. Ou ao menos a perceber que não estamos sozinhos em alguns tortuosos caminhos.
Quem lê Drummond ou Pessoa não é masoquista. Assim como não o é quem ouve Radiohead, Los Hermanos, Legião Urbana. Não necessariamente. A dor é necessária, o enfrentamento é necessário e isso não significa aumentar a tristeza. Mas talvez seja mais um álbum pesado que triste.
É uma beleza única, como sempre se pode esperar da banda. No início não gostei tanto do álbum, mas hoje em dia é o meu favorito. Talvez seja preciso mesmo ouvi-lo diversas vezes para entendê-lo. E os sons são alucinantes. O show do disco é uma loucura, com luzes gigantescas, criando psicodelias e entorpecendo qualquer um. É uma verdadeira experimentação, e talvez este seja o sentido maior da arte: experimentar o que o artista tem a oferecer, a indução de sensações no corpo aberto de seu receptor. Claro que isso exige que a entrega seja máxima por parte de quem ouve. Comedir-se não é tão recompensador.

Radiohead!
Uma outra sensação é aquela de ler Clarice Lispector: o que está sendo dito é sempre querendo dizer outra coisa. É outro lugar alcançado, e não necessariamente aquele descrito nas letras e nos sons. É como se fosse uma chave, abrindo as portas de um lugar mágico onde tudo vibra ao simples aproximar de um dedo.
E eu fico assim: boquiaberto, com olhos úmidos, a espinha arrepiada e aquela vontade louca de escrever.
Mas acho que não consegui dizer.
*: Falo aqui apenas do primeiro disco, chamado October.
¹: “Como pude terminar onde comecei?”
²: Somente depois de revisar o texto foi que lembrei que o nome do álbum é retirado de um trecho da música.
³: “A todos os seres humanos”

Esse texto me deixou na bad a primeira vez que eu li, aí não pude comentar. Mas a bad nem foi pelo oo In Rainbows, acho que nem pelo seu texto em si, sei lá :B
Eu acho o In Rainbows muito contemplativo. É triste e não é, também está longe de ser alegre. Não sei ele tem um estado próprio que tem bastante relação com isso que você disse de sentir-se vivo.
E sem dúvidas o show mais foda da minha vida.
(“Sapecaram” HAHA)
O blog tá muito legal, cara!
Beijos!