(Tradução de Ademilson Franckini e Carmen Seganfredo)
É engraçado como falar sobre um autor que não agradou é desconcertante. Porque a literatura é, além de arte enquanto técnica com alguma utilidade de fruição pública (na mais despretensiosa e simplista das explicações), uma expressão íntima muito honesta, por mais desonesta que possa ter sido a sua produção. Julgar uma literatura como boa ou regular requer um julgamento sobre o relato de um homem, o que está para além de meu alcance e pretensão. E isto não é autopoliciamento, medo de espalhar o mal ou algo do gênero: é antes respeito e admiração pelas letras e por aqueles que a produzem. Entregar-se às palavras de um homem antes de entregar-se às letras é fundamental. Os homens são mais importantes que a arte.
Não digo com isso que a crítica do que é a boa literatura ou não deva inexistir. Ela simplesmente existe, porque nós vivemos com aqueles nossos ideais na cabeça – no melhor platonismo de que somos capazes – com formas do que seria uma boa literatura, um bom companheiro, uma boa colher, uma boa cadeira, e a partir daí julgamos o que está ao nosso redor como deformado e o mais próximo possível desse ideal ou não.
Charles Dickens escreve Um Conto de Natal em 1843, época de rápidos processos industrializantes, tendo a Inglaterra – onde se encontrava Dickens ao escrever a obra – como um dos principais palcos do desenvolvimento capitalista. O autor parece se sensibilizar com a constante desumanização das relações humanas à sua volta, relatando no livro algumas realidades duras conseqüentes deste sistema econômico, mostrando ao leitor bairros miseráveis, famílias pobres e um homem rico, burguês e solitário – personagem principal do livro.
Este é o senhor Ebenezer Scrooge (sim, o mesmo nome do Tio Patinhas no original – não é coincidência), um homem que um dia tornou a sua existência voltada ao enriquecimento acima de qualquer relação, tornando-o um velho ranzinza, pão-duro e solitário, num ciclo vicioso que apenas amplia essa condição. O livro é dividido em cinco capítulos, pois foi produzido em forma de folhetim, de forma que cada capítulo foi publicado individualmente. O primeiro capítulo trata da descrição – muito inocente por sinal – de Scrooge.
Descrição inocente, pois o personagem é um arquétipo, um molde fixo sem muitas variações. Se o objetivo era fazer um velho ranzinza e pão-duro, apenas isto é tratado, além de serem fornecidas situações forçosas apenas para demonstrar este lado de Scrooge. Como é época de natal, todos que passam pelo velho e desejam feliz natal recebem um fora como resposta na melhor das hipóteses. Há um trecho em que Scrooge pergunta ao seu sobrinho – que nunca lhe disse nada que lhe ofendesse – por que o homem estava tão feliz se este era pobre. Há outra situação ainda em que aparecem homens pedindo dinheiro para caridade, e Scrooge responde que prisões e casas de trabalho forçado são melhores aos homens improdutivos.
A situação tende a sofrer abalos quando o espírito de um antigo sócio, Marley, aparece, advertindo Scrooge de seu estado medíocre e dizendo que três espíritos (os espíritos do natal) virão visitá-lo na tentativa de transformá-lo e salvar sua alma. O problema é posto nestes termos: Scrooge deveria melhorar suas relações humanas para salvar sua alma, e esta é a lição em última instância, mais do que um conjunto de valores morais terrenos. Scrooge não deve melhorar porque a vida seria melhor, mas porque após a morte seria melhor. O lado terreno é também abordado – principalmente nos últimos capítulos – mas ainda sim o motivo de sua salvação está no além-vida.
Os espíritos visitam-no e acabam por transformar o velho aos poucos (esta história é bem conhecida, pois foram feitos filmes, quadrinhos, desenhos e peças sobre o livro), mostrando seus natais passados, o natal presente e o natal futuro. Há quem diga que Dickens é um grande crítico social em sua obra, mas não vejo por este lado. O autor critica o capitalismo predatório, mostrando como as relações interpessoais são afetadas quando não há ética nem moral, mas não é sua pretensão – ao meu ver – abalar as estruturas e as instituições que existem a favor deste sistema ou reproduzindo-o.
Um ponto forte é que as descrições sobre o espírito natalino (não o espírito imaterial, mas a energia das pessoas em comunhão nesta época) são muito bonitas e contagiantes. Você se sente mais amoroso ao ler. E a descrição dos banquetes é de deixar com água na boca.
No mais, a descrição inicial e inocente de Scrooge no inicio ganha mais profundidade conforme avançam os capítulos. As descrições das sensações do velho são onde Dickens consegue entrelaçar o tema enredando-o numa rede mais complexa. No mais, talvez a escrita ter sido feita nos moldes referidos (os folhetins) tenha influenciado na escrita mais inocente e, de certo modo, viciada do autor, em fórmulas mais vulgares (no sentido de comuns ou usuais). Não dá pra saber sobre um autor lendo um livro só (na maioria dos casos).
E talvez a leitura tenha mais efeito – e mais resultados – sobre leitores mais jovens (crianças) ou em leitores com as mesmas crenças do autor (ou que ele reproduz em seu livro).
Um trecho de Um Conto de Natal:
“Scrooge era um tremendo pão-duro! Um velho sovina, avarento, mesquinho, unha-de-fome e ganancioso! Duro e áspero como uma pedra de amolar, não era possível arrancar dele a menor faísca de generosidade. Era solitário e fechado como uma ostra. A sua frieza congelou o seu rosto e encompridou ainda mais o seu nariz pontudo, murchou suas bochechas e endureceu seu caminhar; deixou seus olhos vermelhos, azulou seus lábios finos e tornou ferino o tom de sua áspera voz. Uma camada de gelo cobria sua cabeça, suas sobrancelhas e seu queixo áspero. Onde ia, levava consigo sua frieza, que gelava o escritório nos dias mais quentes do ano e não degelava nem um grau do Natal.
O frio e o calor tinham pouca influência sobre Scrooge. Calor algum podia aquecê-lo e nem o vento de inverno esfriá-lo. Nenhum vento que soprasse era mais áspero que ele, nenhuma neve que caísse era mais insistente e determinada em seus propósitos e nenhum temporal podia ser mais desagradável. O tempo ruim não o impressionava. A chuva, a neve e o granizo só tinham uma vantagem sobre ele: caíam com graça, e Scrooge não tinha graça alguma.”




























Muro o tema do existencialismo é abordado não de forma tão direta quanto em A Náusea (1938), mas força o leitor a encarar de frente a sua própria existência. Alguém que leia com cuidado O Muro e que reflita sobre o que está lendo terá um efeito forte sobre sua própria mente.
“Astronauta libertado
ões sobre livros, cds, filmes e outros que eu já vinha fazendo na solidão do meu ser. Longe de serem estudos ou críticas, estas reflexões dizem mais respeito a impressões e seus registros descompromissados (mas não desresponsabilizados) sobre a arte. Pode ser que eu me limite bastante a um tipo de arte, ou pode ser que eu me alongue por diversos meios de expressão. Eu mesmo não sei.