Aqueles Dois, do conto de Caio Fernando Abreu – Cia Luna Lunera

•02/02/2010 • Deixe um comentário

Nos contos que li do Caio Fernando – não muitos, apenas os de O Ovo Apunhalado (1975) e alguns de Morangos Mofados (1982) – percebo sempre aquela atmosfera meio mágica, meio lúdica, meio delirante (não faço idéia de como ele consegue isso!) que vai te cativando desde os sentimentos até os sentidos, como um arrepio que parte do espírito para o corpo.

A Cia Luna Lunera de teatro realizou uma montagem de um conto que me causa esse tipo de arrepio, chamado

Caio Fernando Abreu

“Aqueles dois”, que está em Morangos Mofados. Como o próprio Caio Fernando aponta, esta é uma “história de aparente mediocridade e repressão”, mas é também uma história que mostra umas coisas muito bonitas: é a história de Raul e Saul, dois homens que trabalham em uma repartição (que Raul – ou teria sido Saul? – chamaria mais tarde de “deserto de almas”) e identificam-se como dois duplos e, despertando interesse mútuo gradativamente, aproximando-se, começam a ser alvo de preconceito e repressão.

Imagino o quão difícil talvez seja transformar um conto em uma peça, tendo de passar suas sensações mais essenciais agora em imagem, mesmo que as palavras contidas nele sejam ditas, ainda por cima sendo um conto com pouco ou quase nenhum diálogo. Mas acredito que o trabalho da Cia Luna Lunera foi espetacular, neste sentido, inclusive no que diz respeito a um poder criativo: não apenas reproduziram certa atmosfera do conto essencial, como também criaram algo que podem chamar de seu (deles). Há coisas na peça que são méritos de seus diretores (os quatro que atuam nela e mais um quinto: Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati) exclusivamente.

A peça é realizada como que em Teatro de Arena (conheço pouco sobre Teatro, ainda, por isso o cuidado em dizer as coisas), no sistema Coringa de Augusto Boal onde os atores revezam entre si os personagens, sendo portanto todos os atores todos os personagens, muitas vezes ao mesmo tempo. Os quatro que atuam nela por diversas vezes interpretam ao mesmo tempo Raul e Saul, numa alternância alucinada que cria, junto com a iluminação maravilhosa, um ambiente mágico e delirante, muito similar aos contos que li do Caio e ao mesmo tempo muito própria do espetáculo.

Outra coisa que contribuiu para esse clima construído nas cenas são as artes corpóreas: como que danças do corpo, porém sem ritmo, porque não se propunham exatamente como danças. Sendo mais objetivo: cenas coreografadas (ou previamente pré-pensadas – num sentido de uma organicidade fluida, talvez, permitindo-se pequenos improvisos, ou grandes, não sei, só eles sabem) onde a posição e o movimento dos corpos contribuem de forma muito mais nítida para uma criação poética: como a cena em que Raul e Saul abraçam-se com sofreguidão e amor ao perceberem a sua proximidade súbita.

Aqueles dois

Também foram felizes as inserções de trechos inteiros do conto na peça, em leituras algumas vezes narrativas, com uma voz exterior, e algumas vezes numa lucidez sincera onde não se identifica se dos personagens ou dos atores (acho que é difícil explicar isso para quem não viu a peça efetivamente, mas fica o relato da sensação). Quase o conto inteiro é lido, e isso é muito gostoso, e não pedante, como pode parecer, ou tedioso.

Há certa carga de sinceridade no espetáculo, tanto pela postura dentro e fora de cena (que muitas vezes se misturam, como em determinada hora na peça em que param o espetáculo pela metade para dedicar aquela apresentação a alguém): os integrantes pedem ainda para que cada um preencha uma ficha com suas impressões sobre o espetáculo, desejando assim ouvir criticas e opiniões sobre o que poderia melhorar na montagem da peça. A alternância entre os personagens e o cenário quase simples (quase porque não é um cenário que qualquer um conseguiria, mas não é demasiado caro para uma companhia) passam ainda essa proximidade desejada – acho – com a plateia, que ao inicio da peça recebe previsões de horóscopo, vê a preparação corporal (os tais exercícios de teatro com os quais não estou totalmente familiarizado), criando um ambiente de sinceridade que muito me agradou.

Acho essa sinceridade extremamente favorável à experimentação da arte, porque permite por parte de ambas as partes uma entrega muito bonita despejando objetividades e defesas no chão em prol de um pacto que se firma quando as partes são verdadeiras.

Não preciso dizer ainda que a atuação está deslumbrante. Não há muitas criticas: não que não haja o que melhorar, mas na entrega verdadeira a qual me permiti o que me interessa registrar são as coisas essenciais, o sentimento que a peça desperta de mais relevante: amor.

Aqueles

Obs: uma duvida para quem viu a peça: o Caio Fernando Abreu gostava do Nelson Rodrigues? Se sim, isso me soa muito estranho sabendo quem ele era e suas opiniões. Se não, esta seria a única critica: eu acho que vai um pouco contra o que o próprio Caio era.

Obs 2: para ler o conto, clique aqui.

Poemas malditos, gozosos e devotos – Hilda Hilst

•19/01/2010 • Deixe um comentário

Hilda Hilst me tira do sério. Ao ler seus poemas estremeço. A forma como utiliza a linguagem é perturbadora, inquietante. Não há tranqüilidade: há fúria, respiração ofegante, sexo. Porque, acredito, a poeta é capaz de perceber um eterno latejar no mundo. É como sentir a respiração e a pulsação da própria Terra, e de seus habitantes e objetos entrepostos. Não é a toa que existem diversos poemas seus que se dedicam a analisar essa coisa que lateja. Essa Vida, ou Deus, ou Outro.

E se em Alcoólicas (1990) transa com a Vida, numa tentativa libidinosa (e não apenas sexual) de imiscuir-se para entender, em Poemas malditos, gozosos e devotos (1984) terá feito algo semelhante com Deus.

Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
O êxtase de te deitares contigo. Beba.
Estilhaça a tua própria medida.

(ALCOÓLICAS)

A grande diferença entre a Vida e Deus é que Deus é muito mais cruel. Se a Vida pode ser dura, crua, “Alça de tripa e metal”, Deus “É punho. Estilhaça.” Chega a ser “Quase sempre assassino”. Mas acredito ainda que Hilda escreva sobre a mesma Coisa, o mesmo Todo, buscando respostas para entender o mundo que lateja. “Pensar Deus é apenas uma certa maneira de pensar o mundo”: esta máxima de Simone Weil é a citação única do poema-livro, dando-nos uma chave interpretativa dos seus rogos ao Deus. Não estou dizendo que Hilda não crê em Deus, nem que reafirma sua existência. Estou dizendo que estas noções confundem-se num eterno interrogar-se. Não faço idéia se os questionamentos traduzem-se em respostas na sua vida cotidiana, pois conheço muito pouco de sua vida, e creio que mesmo que soubesse o bastante, jamais seria o bastante para este tipo de conclusão.

Só sei que me desmereço se não sangro.
Só sei que fico afastada
De uns fios de conhecimento, se não tento.

Estou sozinha, meu Deus, se te penso.

(POEMAS MALDITOS, GOZOSOS E DEVOTOS)

É um livro curto, com 21 poemas (apenas um poema dividido vários) sem métrica, sem rimas, mas às vezes com certa musicalidade. Tem uma linguagem forte, impositiva, austera. Febril. Hilda é uma descontrolada, mas muito fria, porque capaz de transformar esse debater-se em versos fortes. Estou falando de coisas mais intuitivas que acadêmicas. Os sentidos falam mais sobre arte que diplomas. Falo isso com a liberdade de quem também tenta entender a arte segundo as minhas ciências (principalmente História), e com a liberdade de quem percebe, intuitivamente, de que a intuição rege o artista, mesmo que ele esteja à mercê de seu tempo e espaço, assimilando assim crenças, saberes, costumes, valores, etc.

No poema, Deus é um gigante procurado, multifacetado, um todo amoral e poderoso, com suas necessidades dessemelhantes às dos homens. Hilda entende que sua própria fome (a da poeta, e não a de Deus) só será saciada – e aqui não falo de desejos ou quereres, mas de necessidades vitais – se investigar este Deus e sua fome. Mas para investigar terá que ir muito fundo, receber coronhadas, cair em armadilhas, debater-se, e buscar prazeres humanos, chegando ao desesperado desejo de possuir Deus.

Dirás que o humano desejo
Não te percebe as fomes. Sim, meu senhor,
Te percebo. Mas deixa-me amar a ti, neste texto
Com os enlevos
De uma mulher que só sabe o homem.

(idem)

A linguagem tornou-se a promessa do impossível: no mundo físico o buscar era visivelmente vão, mas no texto, nas palavras, a busca, mesmo que não chegue efetivamente a nada, estremece o corpo e transcende à condição estática humana para latejar una com o mundo. Por isso a poeta só pode amar sonâmbula, como quem dorme acordada. A linguagem não é brincadeira, e Deus, ou Vida, ou Mundo, não é invenção dela: não há relação de domínio perante a linguagem, é uma via de mão dupla e qualquer um que tente dominar o outro incorrerá numa relação desigual, perdendo o que há de melhor nela. A transcendência.

Assim talvez seja também o desejo de Hilda quando pensa sua relação com Deus. Se Ele tenta dominá-la, se ela e o leitor têm de ter cuidado frente a um pai que “Mandou seu filho / Ser traspassado // Nos pés de carne / Nas mãos de carne / No peito vivo. De carne”, ela também busca entendê-lo, não mortificá-lo nem temê-lo, mas encará-lo como Outro, numa relação onde a mutualidade possa ser alcançada. Ainda que entenda que Ele seja maior e inalcançável, porque Criador (não tenho certeza do motivo).

Hilda Hilst

Segue o vigésimo primeiro poema, o que encerra o livro:

XXI

Não te machuque a minha ausência, meu Deus,
Quando eu não mais estiver na Terra
Onde agora canto amor e heresia.
Outros hão ferir e amar
Teu coração e corpo. Tuas bifrontes
Valias, mandarim e ovelha, soberba e timidez

Não temas.
Meus pares e outros homens
Te farão viver destas duas voragens:
Matança e amanhecer, sangue e poesia.

Chora por mim. Pela poeira que fui
Serei, e sou agora. Pelo esquecimento
Que virá de ti e dos amigos.
Pelas palavras que te deram vida
E hoje me dão morte. Punhal, cegueira

Sorri, meu Deus, por mim. De cedro
De mil abelhas tu és. Cavalo-d’água
Rondando o ego. Sorri. Te amei sonâmbula
Esdrúxula, mas te amei inteira.

Demian – Hermann Hesse

•18/12/2009 • 2 Comentários

(Tradução de Ivo Barroso)

Hermann Hesse é um sonhador, no sentido mais ativo que essa palavra possa carregar. É um construtor e um adorador de sonhos e fantasias. O Teatro Mágico de O Lobo da Estepe (1927) deixa uma profunda sensação de um sonho repulsivo e atrativo, que traz a libertação aos personagens e aos leitores. Se por um lado o Teatro Mágico foi palco de um sonho vivido e ao mesmo tempo sonhado, confundindo o leitor, o palco dos acontecimentos de Demian (1919) é o Tempo, e não o Espaço.

O Tempo pois não é o local que imediatamente irradia o sonho, mas a época e as pessoas que esta época exigiu. Época em dois níveis: a Europa à beira de uma guerra e a adolescência (e antes mesmo a infância) de um rapaz.

Em algumas palavras o personagem principal, e narrador do livro, é Sinclair, um garoto filho de pais burgueses, piedosos, apegados à ordem, ao asseio, à religião, entre outros valores que Sinclair denomina, em seus pensamentos, “mundo luminoso”. Este é o mundo do conforto, o mundo de seu passado (pois o livro começa com o rompimento com este mundo, tornando-o passado), a segurança e a proteção do lar e daqueles que representavam, talvez, o bem. Mas Sinclair descobre, como todo homem há de descobrir, que há um mundo que se contrapõe ao seu conhecido, que há um mundo oculto a ser desvendado por aqueles que se mostram encorajados a tal. Este é o “mundo sombrio”, a outra metade do mundo, a desordem, o questionamento, a puberdade, a impureza, o Demônio.

Herman Hesse

Hermann Hesse

Max Demian é aquele que apresentará a Sinclair (a dualidade dos nomes não é por acaso) esta outra metade. Ainda em infância, Demian salva Sinclair de um dos lados do “mundo sombrio” que atormentavam o garoto até então “sagrado”. Mas esta salvação representa uma segunda perdição no “mundo sombrio”, desta vez enveredando por outros caminhos. O mundo como Sinclair o conhecia estaria para ruir quando Demian explicasse a sua visão sobre a história de Caim, tornando Sinclair um “filho de Caim”.

O livro é alucinante, em diversos sentidos. Demian é um ser perturbador, como o Harry Haller de O Lobo da Estepe talvez o fosse em seu passado. Tudo o que diz parece carregar o espantoso tom da verdade, tal qual não a conhecem a ciência, a espiritualidade, a filosofia. A convivência com o personagem é um aprendizado para Sinclair e para quem lê. E o crescimento de Sinclair é fantástico: o que fica é a sensação do homem que busca seu próprio caminho, aquele que precisa “viver aquilo que brotava espontaneamente” e reconhece o árduo caminho. Não é o caminho dos homens decididos, aqueles que prevêem o futuro. É o caminho daqueles que procuram o próprio destino.

Fortemente influenciado pelo pensamento de Freud, Demian tem como temática, muitas vezes, a questão dos sonhos e de como eles expressam algo que está no sonhador e como o sonhador expressa esses sonhos após tê-los. A dúvida é o que intercede primeiro, o mundo dos sonhos ou o real, pois tudo parece fugidio, e ter esta dúvida em mente talvez já seja a resposta, num cuidado filosófico com a matéria, com os homens e com aquilo que criam ou percebem. Criam as coisas os homens, ou criam o poder de criação dos homens as coisas? Acho que não consigo ser claro, mas é que a questão me avassala.

Eva surge como redentora, mas explicá-la exigiria uma astúcia para além da minha capacidade, ou mesmo da de Hesse. Parece mesmo que a personagem cresceu acima do seu criador, seu leitor e aqueles que a cercavam então. Mas o que consigo captar de Eva é que ela é um nódulo no Tempo, talvez o próprio Teatro Mágico encarnado, numa forma mais redentora e mais humana, assim como mais lúcida, mas ainda fantástica. Não que ela represente o seu próprio tempo, muito pelo contrário. Tampouco expressa a passagem do tempo para Sinclair. Ela é um nódulo atrativo no Tempo, algo como a sua própria morte e seu renascimento.

Tudo parece contraditório e por isso mesmo verossímil em Demian. Não poderia haver Max Demian se não houvesse Sinclair, e vice-versa. A construção dos personagens tal qual existem perpassa a mesma questão. Li em algum lugar que Hesse trabalha com a idéia de criação de “tipos”, algo como arquétipos que servem para explicar muitas pessoas, ao invés de individualizar uma existência. Pode ser. Mas Max Demian e Emil Sinclair ganharam vida única, ainda que eu tenha me identificado com o complicado Sinclair.

Mas essa identificação provém mais da forma como este absorvia o mundo do que o que se dava à sua volta. Minha vida quase nada se igualou à do personagem. Porém as correlações de sensações foram feitas, e suas impressões sobre a passagem da infância e a descoberta de Demian foram de tal forma análogas às minhas, que uma onda nostálgica me arrebatou por diversas vezes. A dualidade de “mundo luminoso” e “mundo sombrio” provavelmente é a dualidade presente na passagem de uma infância para uma adolescência de diversos homens e mulheres, e talvez aí residam os tais “tipos” que dizem Hesse construir.

Claro, a trajetória de Sinclair é, diversas vezes, comparável à de diversos homens, mas é a isso que se resume a criação de “tipos”? Não seriam todos homens análogos entre diversos outros homens, pois há uma mesma coisa que permite a nossa comunicação? Mesmo que muito diferentes, não somos capazes de nos enxergar como semelhantes e isso não se deve a um motivo muito concreto? Parece-me muito mais que a criação de “tipos” resume-se a outros aspectos, e talvez um estudo maior sobre os tais “tipos” me ajudasse, ou um esclarecimento amigo.

No mais, o desfecho do livro carregou-me para esferas inimagináveis. O sonho e a realidade foram fundidos de tal forma, que não consegui despertar. A inquietude e o amor gerados pelo livro são muito grandes e não cabem em uma só pessoa, por isso a necessidade de compartilhar. Demian carrega aquela atmosfera trágica e amorosa de O Lobo da Estepe, ainda que o último seja ainda mais trágico e sua redenção seja mais intensa.

Salvador Dali e os sonhos.

Um trecho do segundo capítulo, “O Sinal de Caim”, quando Demian diz a Sinclair que a explicação sobre a história de Caim e Abel poderia ser diferente:

“Meu novo amigo deu-me outra palmada no ombro.

-Nada mais fácil. O que houve desde o principio, e constitui como que o ponto originário da história, foi o sinal. Havia um homem em cujo rosto era visível algo especial, algo que atemorizava os demais. Não se atreviam a tocá-lo e sentiam medo diante dele e de seus filhos. Mas, naturalmente, o sinal que aquele homem trazia na face não era material, não era, por exemplo, como o de um carimbo dos correios; as coisas não costumavam acontecer, na vida, de maneira tão rudimentar. Tratava-se possivelmente de algo talvez sinistro, apenas perceptível, digamos um pouco mais de vivacidade e de audácia no olhar. Aquele homem era poderoso e esparzia inquietude. Tinha um ‘sinal’. As pessoas podiam explicar aquilo como quisessem. E sempre queremos aquilo que nos seja mais cômodo e que nos dê razão. Os filhos de Caim, marcados com o ‘sinal’, atemorizavam os demais, e aquele sinal passou a ser explicado não como a distinção que realmente era, mas exatamente como o contrário. Passaram a dizer que os homens assim marcados eram pessoas suspeitas e ímpias, o que, na verdade, ocorria. Pois os homens corajosos, as pessoas de caráter, sempre inquietaram os demais. Tornava-se, portanto, francamente incômoda a existência de uma raça especial de homens sem medo e capazes de infundir medo aos demais, e então lhes atribuíram um apodo e uma lenda amarga para se vingarem daquela raça e justificarem de certo modo os temores sofridos… Entendes?

-Acho que sim… Mas… nesse caso, Caim não era mau e toda a narração da Bíblia está errada.

-Está e não está… Essas histórias da remota antiguidade são sempre em essência verdadeiras, mas nem sempre foram recolhidas e explicadas com toda a garantia de exatidão. Para resumir, minha opinião é que Caim era um verdadeiro homem, e lhe arranjaram essa história porque o temiam. A origem do assunto não passou de um murmúrio, como tantas coisas que se contam por aí; mas a fábula tinha cunho de verdade no que diz respeito a Caim e seus filhos trazerem um sinal e se diferençacem dos demais homens…

Eu o escutava estupefato.

-Queres dizer, então, que também a morte de Abel não foi verdade? – interroguei intrigado.

-Olha… seguramente foi verdade. Um homem forte matou a um outro mais fraco. Que esse fosse verdadeiramente seu irmão já é mais duvidoso. A crua realidade foi esta: o homem forte matou o mais fraco. Talvez tenha sido um feito heróico, talvez não. Seja como for, os outros homens fracos sentiram medo e se uniram em seus clamores contra o fratricida; mas quando lhe perguntavam por que não o prendiam ou o justiçavam, em vez de responderem. ‘Porque somos uns covardes!’, respondiam: ‘Impossível! Ele tem um sinal! Está marcado por Deus.’ A lenda deve ter-se originado assim… Mas, estou tomando demasiadamente o teu tempo. Até a vista.”

Um Conto de Natal – Charles Dickens

•11/12/2009 • Deixe um comentário

(Tradução de Ademilson Franckini e Carmen Seganfredo)

É engraçado como falar sobre um autor que não agradou é desconcertante. Porque a literatura é, além de arte enquanto técnica com alguma utilidade de fruição pública (na mais despretensiosa e simplista das explicações), uma expressão íntima muito honesta, por mais desonesta que possa ter sido a sua produção. Julgar uma literatura como boa ou regular requer um julgamento sobre o relato de um homem, o que está para além de meu alcance e pretensão. E isto não é autopoliciamento, medo de espalhar o mal ou algo do gênero: é antes respeito e admiração pelas letras e por aqueles que a produzem. Entregar-se às palavras de um homem antes de entregar-se às letras é fundamental. Os homens são mais importantes que a arte.

Não digo com isso que a crítica do que é a boa literatura ou não deva inexistir. Ela simplesmente existe, porque nós vivemos com aqueles nossos ideais na cabeça – no melhor platonismo de que somos capazes – com formas do que seria uma boa literatura, um bom companheiro, uma boa colher, uma boa cadeira, e a partir daí julgamos o que está ao nosso redor como deformado e o mais próximo possível desse ideal ou não.

Charles Dickens

Charles Dickens escreve Um Conto de Natal em 1843, época de rápidos processos industrializantes, tendo a Inglaterra – onde se encontrava Dickens ao escrever a obra – como um dos principais palcos do desenvolvimento capitalista. O autor parece se sensibilizar com a constante desumanização das relações humanas à sua volta, relatando no livro algumas realidades duras conseqüentes deste sistema econômico, mostrando ao leitor bairros miseráveis, famílias pobres e um homem rico, burguês e solitário – personagem principal do livro.

Este é o senhor Ebenezer Scrooge (sim, o mesmo nome do Tio Patinhas no original – não é coincidência), um homem que um dia tornou a sua existência voltada ao enriquecimento acima de qualquer relação, tornando-o um velho ranzinza, pão-duro e solitário, num ciclo vicioso que apenas amplia essa condição. O livro é dividido em cinco capítulos, pois foi produzido em forma de folhetim, de forma que cada capítulo foi publicado individualmente. O primeiro capítulo trata da descrição – muito inocente por sinal – de Scrooge.

Descrição inocente, pois o personagem é um arquétipo, um molde fixo sem muitas variações. Se o objetivo era fazer um velho ranzinza e pão-duro, apenas isto é tratado, além de serem fornecidas situações forçosas apenas para demonstrar este lado de Scrooge. Como é época de natal, todos que passam pelo velho e desejam feliz natal recebem um fora como resposta na melhor das hipóteses. Há um trecho em que Scrooge pergunta ao seu sobrinho – que nunca lhe disse nada que lhe ofendesse – por que o homem estava tão feliz se este era pobre. Há outra situação ainda em que aparecem homens pedindo dinheiro para caridade, e Scrooge responde que prisões e casas de trabalho forçado são melhores aos homens improdutivos.

A situação tende a sofrer abalos quando o espírito de um antigo sócio, Marley, aparece, advertindo Scrooge de seu estado medíocre e dizendo que três espíritos (os espíritos do natal) virão visitá-lo na tentativa de transformá-lo e salvar sua alma. O problema é posto nestes termos: Scrooge deveria melhorar suas relações humanas para salvar sua alma, e esta é a lição em última instância, mais do que um conjunto de valores morais terrenos. Scrooge não deve melhorar porque a vida seria melhor, mas porque após a morte seria melhor. O lado terreno é também abordado – principalmente nos últimos capítulos – mas ainda sim o motivo de sua salvação está no além-vida.

Os espíritos visitam-no e acabam por transformar o velho aos poucos (esta história é bem conhecida, pois foram feitos filmes, quadrinhos, desenhos e peças sobre o livro), mostrando seus natais passados, o natal presente e o natal futuro. Há quem diga que Dickens é um grande crítico social em sua obra, mas não vejo por este lado. O autor critica o capitalismo predatório, mostrando como as relações interpessoais são afetadas quando não há ética nem moral, mas não é sua pretensão – ao meu ver – abalar as estruturas e as instituições que existem a favor deste sistema ou reproduzindo-o.

Um ponto forte é que as descrições sobre o espírito natalino (não o espírito imaterial, mas a energia das pessoas em comunhão nesta época) são muito bonitas e contagiantes. Você se sente mais amoroso ao ler. E a descrição dos banquetes é de deixar com água na boca.

Uncle Scrooge

No mais, a descrição inicial e inocente de Scrooge no inicio ganha mais profundidade conforme avançam os capítulos. As descrições das sensações do velho são onde Dickens consegue entrelaçar o tema enredando-o numa rede mais complexa. No mais, talvez a escrita ter sido feita nos moldes referidos (os folhetins) tenha influenciado na escrita mais inocente e, de certo modo, viciada do autor, em fórmulas mais vulgares (no sentido de comuns ou usuais). Não dá pra saber sobre um autor lendo um livro só (na maioria dos casos).

E talvez a leitura tenha mais efeito – e mais resultados – sobre leitores mais jovens (crianças) ou em leitores com as mesmas crenças do autor (ou que ele reproduz em seu livro).

Um trecho de Um Conto de Natal:

“Scrooge era um tremendo pão-duro! Um velho sovina, avarento, mesquinho, unha-de-fome e ganancioso! Duro e áspero como uma pedra de amolar, não era possível arrancar dele a menor faísca de generosidade. Era solitário e fechado como uma ostra. A sua frieza congelou o seu rosto e encompridou ainda mais o seu nariz pontudo, murchou suas bochechas e endureceu seu caminhar; deixou seus olhos vermelhos, azulou seus lábios finos e tornou ferino o tom de sua áspera voz. Uma camada de gelo cobria sua cabeça, suas sobrancelhas e seu queixo áspero. Onde ia, levava consigo sua frieza, que gelava o escritório nos dias mais quentes do ano e não degelava nem um grau do Natal.

O frio e o calor tinham pouca influência sobre Scrooge. Calor algum podia aquecê-lo e nem o vento de inverno esfriá-lo. Nenhum vento que soprasse era mais áspero que ele, nenhuma neve que caísse era mais insistente e determinada em seus propósitos e nenhum temporal podia ser mais desagradável. O tempo ruim não o impressionava. A chuva, a neve e o granizo só tinham uma vantagem sobre ele: caíam com graça, e Scrooge não tinha graça alguma.”

A via crucis do corpo – Clarice Lispector

•21/11/2009 • Deixe um comentário

A sinceridade de Clarice às vezes chega a me assustar. Porque não é uma sinceridade comum, a da verdade, a do comprometimento com o outro. É basicamente um comprometimento consigo, até porque sua literatura, como ela mesma afirma, é de uma força interior que ultrapassa a questão da “literatura” em si. Como assim? Assim. Como sei? Porque ela diz e porque eu sei e porque eu creio. São muitas coisas. Ela me ensinou muitas delas. “Uma pessoa leu meus contos e disse que aquilo não era literatura, era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo. Há também a hora do lixo.”, é o que ela diz no prefácio “Explicação”.

E a sinceridade em A via crucis do corpo é diferente. Não no todo, mas na sua fonte. Ainda é aquela sinceridade toda de uma amadora, de alguém que está sempre recomeçando, sempre aprendendo o que está fazendo, sempre intuindo melhor que sabendo. São treze contos mais “Explicação”, catorze no total. Estão dispostos no livro em ordem de sinceridade: começa com a “Explicação” que coloca todas as cartas do livro na mesa. Depois é uma sucessão de baixo nível, de lamúrias do corpo, enquanto fonte dos sentidos e do prazer e mortificado por nossas consciências pesadas ou nossos vizinhos pesados.

Há por exemplo o caso de uma mulher santa e que priva seu corpo de qualquer prazer, e que receberá a visita inesperada de um Outro que transformará sua consciência numa onde “era o domínio do ‘aqui e agora’”. Este é o “Miss Algrave”. “Ruído de passos” e “Melhor do que arder” são contos que me deixaram a impressão de que o desejo é refém de uma visão de mundo e, portanto, menos natural nos homens do que se imagina. Mas também tem o desejo primordial, que destroça nossas realidades quando podado. É que esquecemos às vezes que nossa origem é bestial, compreende? Não nossa sexualidade, mas nosso desejo, uma coisa corpórea transferida para nossas taras (no sentido aqui de desequilíbrio, se tomarmos como ponto de vista o que achamos que somos, racionais, o que não creio em tamanhas proporções).

Mas aí tem aqueles contos das tragédias do corpo. São eles “O corpo”, “Ele me bebeu”, “Praça Mauá”, “A língua do ‘p’” e “Mas vai chover”. As histórias não precisam ser tão criativas, no sentido de serem um emaranhado confuso e bem articulado, para que uma obra de Clarice seja boa, porque a sua gravidade, o peso da presença de seu espírito em suas letras está em outra questão. Mas há umas histórias muito doidas. Por exemplo aquela da realidade transfigurada sobre o maquilador Serjoca e a conclusão de sua amiga ao perceber que o homem bebera seu próprio rosto. É difícil falar sobre Clarice, eu estou tentando. Porque nem ela sabe direito. Tem de se tomar cuidado com estes contos, porque são muito sérios. É difícil lidar com essa descoberta “que este é um mundo-cão”. Se não descoberta, com essa memória, porque estas coisas às vezes viram tabu em nossas mentes. Mesmo que alguém sempre repita que existem estupros, que viram assassinatos crudelíssimos entre amantes, ou outras coisas, a plena ciência de algumas coisas não vem simplesmente de lembrar-se nas palavras. A literatura é a porta para um mundo mais complexo, no sentido de agregar mais significados, explorar mais o nosso modo de entender (ou intuir) o mundo e, assim, senti-lo de forma mais exacerbada, criando nossas próprias realidades.

Tem outros contos que me afetaram mais. São mais cruéis, por incrível que pareça. Minto, não são mais cruéis. Mexem com questões tão essenciais que fugimos delas às vezes. Minto. Não sei como dizer. Acho que é preciso ler, o que eu faço registrando estas coisas é mais uma porta para uma sensação minha do que explicação das coisas que absorvo.

“O homem que apareceu” talvez seja o mais grave. Estes contos que seguem neste pequeno grupo inventado são também confessionais. Carregam a tal sinceridade de que falo de forma absurda. De forma que se torna mais que um livro de contos, torna-se um desabafo, um suspiro, de quem prossegue em uma via crucis (todos prosseguimos; “nós todos somos fracassados, nós todos vamos morrer um dia!”). Não é tão simples nem tão óbvio quanto possa parecer. É preciso ler tudo para entender, mas eu prossigo. “Explicação” entra neste grupo também. Além destes há “Por enquanto”, “Dia após dia”, “Antes da ponte Rio-Niterói”… não lembro se há mais.

É diferente dos outros livros, ao menos dos que eu li até agora (Paixão segundo GH, A hora da estrela, Uma aprendizagem ou livro dos prazeres e Água-viva; portanto, não da pra garantir que é realmente diferente, mas creio que seja, até pela temática e pelas suas confissões – “Todas as histórias deste livro são contundentes. E quem mais sofreu fui eu mesma. Fiquei chocada com a realidade. Se há indecências nas histórias a culpa não é minha.”). É um livro mais sujo, emporcalhado… Ao invés daquele espanto com as coisas há um choque, tão entorpecente quanto o tal espanto. Mas é choque. Talvez seja espanto também, mas não estou em condições de dizê-lo.

É pequenininho e o choque não é uma cartarse, de modo que lê-lo torna-se uma tarefa relativamente fácil. O choque vem durante a leitura, mas ele instaura-se no seu corpo e te marca. De modo que estou em choque agora, quando lembro. E lembro muitas vezes. E o corpo dói. O Outro é sempre um enigma também, concordo com a escritora.

Um pequeno trecho de “Explicação”:

“É um livro de treze histórias. Mas podia ser de quatorze. Eu não quero. Porque estaria desrespeitando a confidência de um homem simples que me contou a sua vida. Ele é charreteiro numa fazenda. E disse-me: para não derramar sangue, separei-me de minha mulher, ela se desencaminhou e desencaminhou minha filha de dezesseis anos. Ele tem um filho de dezoito anos que nem quer ouvir falar no nome da própria mãe. E assim são as coisas.

P.S. –(…) Já tentei olhar bem de perto o rosto de uma pessoa – uma bilheteira de cinema. Para saber do segredo de sua vida. Inútil. A outra pessoa é um enigma. E seus olhos de estátua: cegos.”

Vale a pena sonhar

•19/11/2009 • 1 Comentário

Diretores: Rudi Böhm, Stela Grisotti

Quando se fala de Apolônio de Carvalho se fala de um homem que viveu intensamente os fenômenos do século XX, enquanto brasileiro: viveu durante o Estado Novo no Brasil, foi como voluntário republicano para a Espanha na Guerra Civil que dividiu o país entre republicanos e fascistas (e dividiu posteriormente a esquerda enfraquecendo o movimento revolucionário), lutou na França na resistência à ocupação nazista, retornou ao Brasil e lutou contra a Ditadura Militar. Morreu (pasmem!) em 23 de setembro de 2005, com 93 anos. E durante toda essa vida, viveu também intensamente seus ideais.

Apolônio de Carvalho

O documentário Vale a pena sonhar faz-nos viver intensamente este lado(fator essencial da constituição do ser Apolônio de Carvalho) do militante. De forma cronológica, conta esta trajetória de um herói da esquerda, um homem que se dedicou ao seu ideal: o de um mundo mais justo, com relações mais humanas e mais igualitárias. Para isto, em um século de Extremos, como diria Hobsbawn, a crueza do mundo teve de ser respondida com guerra por diversos homens que queriam modificar a sociedade.

As entrevistas são de uma beleza extraordinária. E fortes também, já que lida com aqueles que viram a Besta de perto, a máquina da guerra soltando fogo pelas narinas. Não só Apolônio é entrevistado, mas sua mulher Reneé, seus filhos e seus companheiros de utopia.

O que a narrativa demonstra é a força e proporção inimaginável de um ideal. É Apolônio quem diz que quem idealiza vive. É ele também quem diz que quem não luta por algo está fadado à mediocridade. Porque o que vemos ali na tela é um homem apaixonado, um homem que viveu, na pratica, não se limitando à crítica, o que pregava. Para Apolônio é isto que deve ser feito: não basta criticar, há que se fazer, construir.

Apolônio e Reneé

Apolônio descreve-se como um visionário. Não haveria como entrar nestas guerras imaginando que fosse perder. Fosse qual fosse o resultado, comprava suas brigas para vencer, porque com a força de um ideal imaginava as possibilidades que o aguardavam no futuro.

Tudo é narrado do ponto de vista daqueles que lutaram pela esquerda. Há que se levar em conta a seleção do que foi dito, porque foi também uma seleção do vivido. Se por um lado optou-se por mostrar determinados aspectos, é porque Apolônio escolheu viver estes mesmos determinados aspectos e esta determinada visão de mundo.

É um documentário que certamente emociona daqueles que sonham e os faz refletir sobre suas condutas e pensamentos, sobre teoria e prática. De certo modo, viver o Vale a pena sonhar é viver Apolônio e isto significa trazer e viver os próprios sonhos – ocultos ou não – nos confins da mente. Mas principalmente para aqueles que sonham especificamente com um mundo mais justo, Apolônio de Carvalho e muitos outros que viveram o que ele foi capaz também de viver são de uma beleza sem igual.

Vale a pena

O Solista

•10/11/2009 • Deixe um comentário

Direção: Joe Wright

O Solista

Steve Lopez (Robert Downey Jr) é um jornalista de Los Angeles que está à procura de uma boa história para sua coluna. Descobre em suas andanças por obra do acaso Nathaniel Anthony Ayers (Jamie Foxx), um músico sem teto tocando um violino com apenas duas cordas. Steve não perde a oportunidade e começa a conversar com a mítica figura e desenvolver sua história, para promover-se como escritor em cima da figura do músico.

Nathaniel de um ponto de vista é apenas mais um dos (segundo dados do filme) 90000 de Los Angeles e isto por si só é um termo chocante. Acompanhar o que espera o músico e o que esperam aqueles que são jogados com ele na margem de uma sociedade que não acolhe aqueles que se diferem (os que fogem o padrão e são considerados loucos, potencialmente perigosos) ou que não possuem renda (Nathaniel possui ambas as características) tratando-os como uma massa amorfa, jogando-os todos no mesmo lugar sujo e degradante, para isolá-los da sociedade onde resta apenas a esperança de que outras organizações tentem fazer um trabalho diferente, geralmente sem muito sucesso.

Steve Lopez

Steve Lopez

O fato agrava-se, pois aprofundar-se em qualquer uma destas figuras que vivem à margem do que alguns constituíram caracterizar como engrenagem válida e sadia seria por si só pesado, pois todos possuem histórias e ignoramos isto todos os dias quando passamos pelas ruas. Se nos emocionamos geralmente é com aquela condição mais mundana do momento, com o fato da fome instantânea (do instante) ou condição mais imediata, mas devemos nos atentar para a história dos homens, as correntes que carregam em suas costas trazendo crônicas intermináveis. Nisto o filme trás esta reflexão à tona: a história de Nathaniel (aliás, verídica, no sentido de ser baseada no encontro que ocorreu entre o Steve e o Nathaniel do mundo não-cinematográfico) é uma história emocionante, é uma história de um homem com suas glórias e quedas, tão lindas quanto deviam ser, pois é um homem.

Nathaniel fala muitas coisas, num ritmo alucinante, com aquela poesia que muitas vezes Manoel de Barros tenta captar, a poesia descontínua, das frases inexplicavelmente prenhas, com a diferença que o Manoel de Barros é inventor de frases, enquanto Nathaniel é captador descontínuo do mundo que o cerca. Steve tenta comunicar-se com ele, mas só aprende como fazê-lo muito tempo depois, por causa do ritmo e do jeito peculiar de Nathaniel: que, alias, é diagnosticado como esquizofrênico. O fato é que com o decorrer do filme forma-se a amizade entre ambos, e o passado de Nathaniel vai-se revelando: um menino gênio que toca o violoncelo mais que com sua capacidade, mas com sua impulsão e inevitabilidade. Nem tão preso às formas clássicas como pode parecer no filme, com sua admiração por Beethoven, pois toca também outros instrumentos incluindo instrumentos de percussão. O menino com uma alma agitada e musical tem também visões (como um carro em chamas que passa diante dos seus olhos quando trancado no porão – onde sempre ficou em sua infância, trancafiado do mundo) e ouve vozes que o confundem e o deixam sem o senso de como as coisas estão acontecendo ou funcionando. Já um pouco mais velho, seu caso agrava-se, até que por motivo de incompatibilidade de mundos afasta-se de tudo e vai viver na rua. O cotidiano emaranhado de fatos, sons e imagens corridos demais o fascina e afeta sua fala, deixando-a no ritmo da cidade, enquanto acostuma-se com a rua como se fosse sua casa. Seria difícil demais dar a dimensão deste personagem, até porque Jamie Foxx interpreta-o muito bem.

Steve e Nathaniel

Steve e Nathaniel

Steve representa um ponto muito importante no filme: sua postura inicial é, enquanto amigo de Nathaniel e emocionado com sua entrega total à música, com a sua vida voltada para um amor total, tenta “consertá-lo”, curá-lo, e isto leva a um conflito de mundos. Demora até Steve perceber que a sua relação com Nathaniel deve ir muito além da questão da “sanidade” do músico, e apenas a experiência, a convivência, vai mostrá-lo que comete um erro ao tratar o amigo, desde o inicio, como um louco que precisa de cura. Não que não devam ser ajudados, mas as atitudes baseadas num pré-julgamento de como a pessoa é desviada de padrões é, além de pré-conceituoso, pois nem tudo é doença nociva à pessoa ou ao mundo (alguns podem até ser), não é solidário, pois concentra atitudes determinadas para grupos, identificando problemas que são completamente diferentes entre pessoas como “farinhas do mesmo saco”, formando campos de concentração de “população potencialmente perigosa”. Além de tudo, é um problema filosófico muito complicado, saber quem sabe o que é melhor para quem, e até onde vai a autodeterminação de um homem em sociedade. A sociedade tem muito medo dos marginais, dos que vivem de maneira diferente. É fácil jogar num mesmo lugar esquizofrênicos, dependentes químicos, moradores de rua, etc etc etc, pois em prol de um sistema que julga que aquele espaço acolhe, utiliza-o, consciente ou inconscientemente, para manter afastado o caótico, visto como vil e nocivo.

Também é estranho saber que é possível entrar em jogos psíquicos tão caóticos. Saber que isto é uma realidade, lembrar-se disto, mais do que ver alguém falando sozinho na rua e achar bizarro. É uma realidade palpável e próxima: em primeiro lugar porque o sistema em que vivemos proporciona o surgimento de problemas psicológicos seriíssimos (não são culpa só deste sistema, mas são proporcionados por, pois muitos estão pautados em questões que só são possíveis na sociedade capitalista contemporânea – mas é lógico: outros sistemas proporcionaram alguns problemas que existem neste, além de outros próprios de seu tempo). Lembro que o tempo inteiro estou falando de um caso mais geral social, e não do caso especifico de Nathaniel, apenas quando menciono seu nome.

Corre corre!

Corre corre!

O filme é muito tenso. Mas o Nathaniel é um homem muito bonito, a sua devoção é linda. Tem umas cenas muito bonitas, como a que Steve emociona-se ao perceber o amor do músico, enquanto assistem a uma peça de Beethoven. Mostra-se também um jogo de luzes representando as possíveis sensações coloridas que a musica causaria que são de arrepiar. Ouvi gente dizendo que era brega, mas achei muito legal.

Eu espero, realmente espero, que este tipo de filme seja visto com alguma reflexão pelas pessoas para além de ver Nathaniel como um caso excêntrico e, portanto, fora de sua verossimilhança de mundo. A desordem, o caótico, o anormal, o marginal é também parte integrante do mundo em que vivemos, e neste sentido marginal é um termo inclusive insuficiente, num termo filosófico mais amplo: ele é válido para caracterizar uma pessoa esquecida, isto sim. O modo como o diferente é visto hoje é muito complicado, ainda que se digam muito progressistas os homens de hoje em dia. Muito avanço foi feito, mas parece que pouco mudou. Sempre que se vê uma história como esta, reflete-se sobre aquilo como algo externo à sua vida. Mas devemos nos entregar mais e sentir na pele, sentir pesar nos olhos as lágrimas, deixar a emoção fluir e sermos capazes de ser o Outro, sermos capazes de transmutarmos-nos, para sermos capazes de avaliar, em conjunto, o que seria melhor para todos. Só se pensa no Outro verdadeiramente quando o Outro se torna si mesmo, e quando o Eu torna-se outro. E isso não é simples, nem quando se sabe.

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Dossiê Drummond – Geneton Moraes Neto

•07/11/2009 • 1 Comentário

2ª Ed, Revista e Ampliada

Dossiê Drummond

Dossiê Drummond é um livro que se propõe a ser biográfico por intermédio de diversas entrevistas, feitas com o próprio Carlos Drummond de Andrade e com contemporâneos que tiveram contato com o escritor, sejam figuras públicas de notoriedade como Caetano Veloso, Otto Lara, Pedro Nava, Fernando Sabino, Ziraldo, Carlos Prestes, sejam outros não tão públicos como sua filha Maria Julieta, seus netos, alguns amigos íntimos e até mesmo sua amante, a quem chamava namorada, Lygia Fernandes.

Geneton Moraes Neto é um homem reacionário e o livro cria essa expectativa: um homem reacionário pesquisando sobre a vida de um grande poeta brasileiro que muitos acusam ser reacionário e muitos acusam ser revolucionário, mas que se descreve muitas vezes como um mero burocrata que faz uns versos ocasionalmente. Drummond, de qualquer forma, é o que assume em Rosa do Povo: “Preso à minha classe e algumas roupas”, perguntando-se “Posso, sem armas, revoltar-me?”, revelando ainda seu desejo de “Por fogo em tudo, inclusive em mim”. São estes versos de “A Flor e a Náusea”, e esta é um pouco a expectativa que ficou em mim ao ler o livro de Geneton.

O homem que escreveu uma nota de prefácio ao livro é um outro reacionário chamado Paulo Francis. Ele é capaz de dizer, em sua aversão completa a idéias comunistas de qualquer cunho, que Drummond era um grande poeta que deu seu prenuncio em Brejo das Almas (o segundo livro de Drummond). Depois, diz que o grande poeta adormeceu em Sentimento do Mundo (o primeiro livro político de Drummond, de 1940), chegando ao cúmulo de dizer que este grande poeta entrou em sono profundo em Rosa do Povo. Quando se entende que Sentimento do Mundo é um livro com fortes idéias de esquerda, com poemas como “Elegia 1938” (“Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição / porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”), e que Rosa do Povo é o ápice deste momento revolucionário militante nas letras de Carlos Drummond de Andrade, entende-se esta aversão. Afinal, Rosa do Povo inclui poemas como “Cidade Prevista”, “A Flor e a Náusea”, “O Mito”, “Carta a Stalingrado”, “Com o russo em Berlim”, com idéias marcadamente marxistas ou derivadas do marxismo, ou apologéticas ao regime socialista. Sem contar outros não tão diretos ou perceptivelmente militantes pela via comunista. De um modo ou de outro, Rosa do Povo, com ou sem esse viés militante (que não pode ser descartado da analise) é considerado por muitos intelectuais como um dos maiores livros do poeta. Acho complicadíssima a posição do senhor Francis, principalmente quando diz: “Quando escreve ‘o mundo não acabou, pois que, entre as ruínas, outros homens surgem…’, é difícil acreditar.”

Geneton

Geneton: "olha minha cara de detetive"

O problema não está em condenar a posição política de Drummond, mas em condenar uma obra riquíssima por ela possuir apaixonados versos comunistas. Claro que a analise política está inclusa na analise da obra, mas Paulo Francis descarta qualquer outra analise pelo simples fato da posição do autor. A estética, a criatividade e os próprios valores morais (tão entrelaçados com a posição política, mas tão facilmente destacáveis dela para estudo) são jogados no lixo por um enfrentamento ideológico. (Francis conclui dizendo que a grande obra do autor foi produzida pós-50, curiosamente quando o autor parou de escrever versos explicitamente marxistas por conta de brigas com o Partido Comunista.)

Voltando a Geneton, o livro possui mais fatos esparsos sobre curiosidades do poeta que uma biografia concisa. A leitura é fácil e até agradável, quando Geneton não dá seus brilhantes palpites sobre política, sobre literatura ou sobre a obra de Drummond em específico. Se o poeta explica, por um lado, que é difícil analisar alguém como o maior poeta, Geneton insiste em chamá-lo maior poeta, ignorando todos os argumentos dados por Drummond, como se fosse mera modéstia poética, quando na verdade deveria estar de ouvidos mais atentos às palavras que entraram por uma orelha sua e saíram pela outra.

É divertido, ainda sim, ver estes lados do poeta. Ainda mais um poeta que recusava-se tanto a dar entrevistas por um período de sua vida. O livro demonstra como a imagem pública de Drummond como homem tímido e retraído a seu canto transformava-se na vida privada. Drummond trocava trotes com Fernando Sabino, colocou fogo num varal de roupas de duas moças para depois socorrê-las e posar de herói, adorava piadas de sacanagem e era tremendamente apaixonado por sua “namorada” durante trinta e seis anos, o que é demonstrado numa transcrição de uma gravação lindíssima e apaixonada (e apaixonante) que ambos fizeram.

Drummond

Carlos Drummond de Andrade

É um livro de curiosidades, insisto. O título Dossiê também remete um pouco a isto. Mais que simplesmente contar sua vida, o livro talvez se comprometa a contar fatos ainda irrevelados da vida do escritor. Mas fica na segunda proposta. Para os fãs de Drummond é um ótimo livro, com toda certeza. Conhecer o poeta animado, brincalhão, erótico, engraçado e nada omisso na vida pessoal, é um verdadeiro prazer. Se tomarmos cuidados com os julgamentos perigosos de Geneton sobre o poeta e sua obra, há como se extrair boas coisas do livro. Para biografia do poeta, não é um livro tão bom assim, embora de para ter uma noção de como era sua vida em determinadas idades e seus diversos posicionamentos sobre arte e política.

In Rainbows – Radiohead*

•03/11/2009 • 1 Comentário

(2007)

1. 15 StepIn Rainbows

2. Bodysnatchers

3. Nude

4. Weird Fishes / Arpeggi

5. All I Need

6. Faust Arp

7. Reckoner

8. House of Cards

9. Jigsaw Falling into Place

10. Videotape

In Rainbows é um álbum de perguntas. 15 Step já dá a chave: “How come I end up where I started?”¹ É estranho como um álbum pode ser tão suspirante. Ouvir a voz do Thom Yorke por si só cantando determinado tipo de música é, já, uma experiência de outro mundo, mas o In Rainbows é muito experimental e carrega uma atmosfera mágica em seu entorno.

É uma angústia muito grande. O álbum faz você ficar nesse arremesso de lá pra cá, com angústias, catarses e suspiros alternados – ou, muitas vezes, combinados, como é o caso de 15 Step – tocando assuntos muito complicados para uma mente conturbada. Ouvi-lo requer querê-lo e estar consciente do que está fazendo, porque é uma experiência muito forte. Bodysnatchers tem aquela coisa de uma cabeça enlouquecida, uma cabeça que não suporta mais a limitação do homem no mundo absurdo; mas eis que, em determinado momento, a agonia se torna iluminação, e a guitarra absurdamente suja torna-se limpa, com um arranjo mais prolongado, e, ainda que o problema não esteja resolvido, há a infinita percepção de estar vivo (acho que estar vivo é um grande prêmio de dificuldades – sentir dor é prova de que se sente algo). E a dor se torna libertação. Rock n Roll.

Thom Yorke

Thom Yorke

Mas se Bodysnatchers é assim, Jigsaw Falling Into Place arrebata o espírito. É toda catarse de angústia. Não há recompensa, porque a dor tem aquele clima apocalíptico do riff amedrontador. Videotape na seqüência é para fechar o caixão, ainda que sejam completamente diferentes.

Mas, mesmo com todas essas questões, é um álbum muito positivo. O espírito desse álbum talvez resida em Reckoner². Reckoner é de uma iluminação, com uma harmonia humanística. Falo isto num sentido mais de altruísmo, como algo dedicado (“to all human beings”³) a todos os que respiram, mesmo (e não falo só dos vivos, pois os mortos também respiram). Com ou sem motivos, é uma mensagem muito importante, que não reside numa simples autoajuda: é o próprio mistério da vida, a recompensa máxima. Não é conformidade, insisto.

Falar do In Rainbows é muito difícil, mas é uma necessidade. Não é difícil por ser um esforço, mas sim porque fica sempre a sensação de que ele é muito maior do que qualquer coisa que eu diga. E não é por uma pretensa superioridade frente a outros álbuns, mas sim por um emaranhado de sensações surpreendentes. Cada vez que o ouço por completo, descubro coisas novíssimas.

Claro que ele possui suspiros muito bonitos, não necessariamente alegres ou felizes, mas não tristes. São suspiros, momentos em que há a contemplação: o caso de All I Need e Faust Arp. E House of cards tem aquele gostinho levemente doce, que quase faz salivar. Mas das três destaco a Faust Arp, com um final sublime, preparando para a seqüência milagrosa de Reckoner. Ouvir o álbum na ordem é uma coisa muito importante.

Bjork e Yorke

Sapecaram.

É um álbum triste, sim. Conheço quem diga que não, mas é impossível negar que pelo menos metade dele é triste. E a arte triste não é repulsiva, não é um culto à tristeza, não se ouve para entristecer (embora isto aconteça muitas vezes). Em primeiro lugar porque a experimentação se torna muito mais mágico-sensitiva e de autoconhecimento que de entristecimento. Em segundo lugar porque a arte que expressa coisas antes inexpressivas em nós, ajuda-nos a nos resolver. Ou ao menos a perceber que não estamos sozinhos em alguns tortuosos caminhos.

Quem lê Drummond ou Pessoa não é masoquista. Assim como não o é quem ouve Radiohead, Los Hermanos, Legião Urbana. Não necessariamente. A dor é necessária, o enfrentamento é necessário e isso não significa aumentar a tristeza. Mas talvez seja mais um álbum pesado que triste.

É uma beleza única, como sempre se pode esperar da banda. No início não gostei tanto do álbum, mas hoje em dia é o meu favorito. Talvez seja preciso mesmo ouvi-lo diversas vezes para entendê-lo. E os sons são alucinantes. O show do disco é uma loucura, com luzes gigantescas, criando psicodelias e entorpecendo qualquer um. É uma verdadeira experimentação, e talvez este seja o sentido maior da arte: experimentar o que o artista tem a oferecer, a indução de sensações no corpo aberto de seu receptor. Claro que isso exige que a entrega seja máxima por parte de quem ouve. Comedir-se não é tão recompensador.

Radiohead!

Radiohead!

Uma outra sensação é aquela de ler Clarice Lispector: o que está sendo dito é sempre querendo dizer outra coisa. É outro lugar alcançado, e não necessariamente aquele descrito nas letras e nos sons. É como se fosse uma chave, abrindo as portas de um lugar mágico onde tudo vibra ao simples aproximar de um dedo.

E eu fico assim: boquiaberto, com olhos úmidos, a espinha arrepiada e aquela vontade louca de escrever.

Mas acho que não consegui dizer.


*: Falo aqui apenas do primeiro disco, chamado October.

¹: “Como pude terminar onde comecei?”

²: Somente depois de revisar o texto foi que lembrei que o nome do álbum é retirado de um trecho da música.

³: “A todos os seres humanos”

Bastardos Inglórios

•30/10/2009 • 2 Comentários

(Semana atarefada, então estou postando um trabalho feito esta semana. Uma pequena resenha do filme Bastardos Inglórios feita para uma matéria da UFF (Narrativa e Guerra), que trata de diferentes meios de narrativa como o jornalismo, o cinema, a literatura e a história e a guerra. Está um pouco grande, como de praxe, mas como não quero ficar famoso nem fazer algo adaptável para o esquema blog de ser – posts pequenos e de rápida leitura – estou colocando a resenha na íntegra. Mesmo assim, não está gigante.)

Mamãe, olha minha cara de sádico.

Mamãe, olha minha cara de sádico.

Diretor: Quentin Tarantino

Quando se fala sobre um filme sobre a Segunda Guerra Mundial, provavelmente teremos alguns temas como: o cenário do front da guerra, a ideologia nazista, os campos de concentração, o dia D ou a invasão da Polônia, entre alguns outros. Bastardos Inglórios trata disso superficialmente. Este é apenas o pano de fundo para o verdadeiro tema: a violência de um grupo rebelde radical de judeus cometendo violências contra os nazistas em forma de vingança.

E, falando-se de Tarantino, a violência e a crueldade (no sentido de cru e não necessariamente moral) de atos são pratos cheios em cena como entretenimento. Nada tão diferente assim de um Tom e Jerry (famoso desenho animado onde um rato e um gato se batem provocando o riso das crianças e dos adultos), neste sentido exclusivamente, exceto pelo realismo de seus filmes, que cortam a maior parte da ficção e dão voz a uma verossimilhança externa maior. Há que se lembrar que um desenho carrega em si diferenças cruciais na mensagem. Mas, quanto ao filme, sempre há uma crítica aqui ou acolá às “degenerações morais” de alguns de seus personagens, então talvez usar um grande inimigo do imaginário social de todo o mundo – o nazista – resolva o problema. Nada melhor que um nazista para apanhar e sofrer, talvez esta seja a máxima que justifica o filme. O nazista é retratado, inclusive, como um sanguinário mau e perverso (como na cena em que Hitler põe-se a rir demasiadamente com diversos assassinatos). O nazista: o mau encarnado, o alvo perfeito para este filme.

Olho por olho, dente por dente.

Olho por olho, dente por dente.

A partir daí, qualquer coisa é possível, então. Em Bastardos Inglórios (como em outros filmes), mas agora mais justificável, a comédia frente à violência é muito forte. Espera-se que se ria, por exemplo, quem presenciar uma cena de Brad Pitt cravando uma faca e gravando uma suástica na testa de seu inimigo judeu, como uma grande cicatriz moral e punitiva, com direito ao sangue jorrando e à carne esfacelando. Afinal o Brad Pitt (não ele, mas seu personagem) era um judeu, bastardo, e inimigo, portanto, daquele que todos são inimigos (ou assim espera-se): o nazista.

Não há nova reflexão sobre a guerra: há uma ficção com toques de comédia e manchas de violência, em um roteiro bem amarrado, belas fotografias, trilha sonora empolgante (ao exemplo de Kill Bill e Pulp Fiction) e condizente com as cenas, uma cena inicial de trazer o coração à boca e diálogos bem construídos principalmente pelo Caçador de Judeus (Christoph Waltz). Mas não uma reflexão. A reflexão fica pelo que falta de reflexão por parte do filme.

A cena inicial de certa maneira reinaugura o inimigo, busca na memória o que provavelmente faria um Caçador de Judeus, traz a angústia, a posterior catarse com a morte e o relembrar de um terror que, se estivesse esquecido, seria relembrado agora.

Bastardos Inglórios se passa na França ocupada. Alguns aspectos de uma vivência cotidiana de uma ocupação nazista são mostrados, mas não é nem o principal nem um ponto grande de reflexão, já que não aprofunda o tema. Como, alias, uma coisa que não fará muito é aprofundar. Afinal, o público deseja uma sensação imediata de catarse em modo de riso ou de agonia liberada num susto ou coisa semelhante; grandes reflexões produzem seres pensantes, tornando o ganho de dinheiro mais difícil (falo aqui de um público ideal para uma indústria cinematográfica). Tampouco se explica ou aprofunda-se o tema da guerra: toma-a como um pressuposto; só precisa relembrá-la e tomá-la como pano de fundo para o entretenimento.

É interessante como a imagem punitivo/vingativa vem à tona pelo que os Bastardos faziam com os nazistas. Tomemos como exemplo a violência destacada acima, com a suástica gravada na testa do nazista. Na antiga Alemanha nazista, houve período em que os Judeus tiveram que andar com uma estrela de Davi em seu braço para serem classificados como tal facilmente. Em um diálogo do personagem de Brad Pitt, Aldo Raine, com um soldado nazista, Aldo pergunta-lhe se o soldado continuará a usar o uniforme nazista. O soldado diz que jamais o utilizará novamente, e Aldo diz que não gosta disto, pois ele gosta de identificar os nazistas só ao olhá-los e então grava a suástica como marca punitiva (da mesma forma que um Judeu ser um Judeu na Alemanha era uma “punição”, pois você estava marcado como “a grande sujeira da humanidade”).

Mas se, por um lado, há violência, dentre outros filmes do diretor, este é um filme muito menos violento. Ao menos em quantidade: em “qualidade” (se tomarmos como qualidade a arte de tornar real ou a de criar o tipo mais bizarro possível de violência) não deixa tanto a dever. Não há, por exemplo, uma cena como a dos vários espadachins contra a protagonista numa luta sanguinária com dezenas de mortes e mutilações; a cena ao final do filme com todas aquelas mortes não é tão chocante quanto esta de Kill Bill. E as cenas chocantes são entrecortadas por tempos muito maiores de diálogos.

Mother, tell your children not to walk my way / Tell your children not to hear my words, what they mean, what they say..."

"Mother, tell your children not to walk my way / Tell your children not to hear my words, what they mean, what they say..."

Numa época onde a guerra é um tema tão presente, há que se entender que a escolha do tema era perfeita para Tarantino. Mas a abordagem é diferenciada, pois os filmes contemporâneos retratam o front da guerra, cada vez mais “real”, com mais efeitos para torná-la “real”, enquanto Tarantino se encarrega com algo que seria equivalente aos bastidores da guerra, ao que ocorre por trás e teria sido escondido. Por ser ficção, descompromete-se com a veracidade em favor do poder criativo do diretor e dos atores. Ainda sim, o filme faz referências históricas aos acontecimentos, e até mesmo ao sistema de espionagem, que foi tão utilizado à época, a exemplo da Primeira Guerra. Há também um cuidado com a vestimenta e com os costumes e lugares, a ambientalização, mas isto não chega a ser tanta novidade, já que é uma tendência dos próprios filmes históricos (o que não é este caso, pois se trata de invenção em cima de um fato histórico) é crescente desde a década de 1990. A ficção leva a altos patamares o poder de criação, como a catarse final, com a grande vingança de Shoshanna (Melanie Laurent) e um desfecho que a historiografia e a memória social logo destacariam como “não foi assim que ocorreu”.

Em suma, Bastardos Inglórios propõe-se como filme de ficção e entretenimento, e acarreta uma trama bem amarrada e pouco reflexiva, usando a violência e a comédia unidas em uma catarse onde ora destaca-se uma ora outra. Enquanto propõe-se a isto, compreende-se o conteúdo raso e pouco reflexivo, do tema da guerra ser tão pouco desenvolvido, e outras questões consideradas, talvez, irrelevantes. Além disso, a reação do público, ao menos onde me limitei (a sala de cinema que assisti e algumas resenhas lidas na internet – falando de uma maneira mais geral, ou seja, da maioria das reações vistas), foi positiva, o que indica que este tipo de filme teria sido bem sucedido na sua proposta de entretenimento. Esta analise é importante, mas faltam dados de outros lugares para uma média mais geral; a arte é uma produção e uma experimentação, então para avaliá-la precisamos avaliar autor, obra e público, em diferentes ordens, para obter um estudo eficiente. Numa resenha como esta, conto apenas com as fontes citadas e com o sucesso de bilheteria do filme, que indicam para um mesmo resultado: o riso é provocado muitas vezes pela violência ou a satirização dela, ou o medo dela, e este riso foi bem vindo à platéia, o que caracteriza que Tarantino está a par do que o público quer, ou o público soube apreciar a produção ao vê-la.

Mas uma vez que temos filmes que exploram este mesmo lado, não é uma inovação no sentido do método utilizado para o entretenimento. Talvez apenas uma combinação melhor de elementos fez-se destacar (inclusive o próprio nome Tarantino, dá ao filme um capital simbólico muito grande, uma vez que quando você nomeia algo este nome carrega valores de experiências passadas ou experiências contadas por outros – como o estudo dos intelectuais, dos críticos ou a opinião da mídia – que influenciam na experimentação da arte).

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