Nos contos que li do Caio Fernando – não muitos, apenas os de O Ovo Apunhalado (1975) e alguns de Morangos Mofados (1982) – percebo sempre aquela atmosfera meio mágica, meio lúdica, meio delirante (não faço idéia de como ele consegue isso!) que vai te cativando desde os sentimentos até os sentidos, como um arrepio que parte do espírito para o corpo.
A Cia Luna Lunera de teatro realizou uma montagem de um conto que me causa esse tipo de arrepio, chamado
“Aqueles dois”, que está em Morangos Mofados. Como o próprio Caio Fernando aponta, esta é uma “história de aparente mediocridade e repressão”, mas é também uma história que mostra umas coisas muito bonitas: é a história de Raul e Saul, dois homens que trabalham em uma repartição (que Raul – ou teria sido Saul? – chamaria mais tarde de “deserto de almas”) e identificam-se como dois duplos e, despertando interesse mútuo gradativamente, aproximando-se, começam a ser alvo de preconceito e repressão.
Imagino o quão difícil talvez seja transformar um conto em uma peça, tendo de passar suas sensações mais essenciais agora em imagem, mesmo que as palavras contidas nele sejam ditas, ainda por cima sendo um conto com pouco ou quase nenhum diálogo. Mas acredito que o trabalho da Cia Luna Lunera foi espetacular, neste sentido, inclusive no que diz respeito a um poder criativo: não apenas reproduziram certa atmosfera do conto essencial, como também criaram algo que podem chamar de seu (deles). Há coisas na peça que são méritos de seus diretores (os quatro que atuam nela e mais um quinto: Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati) exclusivamente.
A peça é realizada como que em Teatro de Arena (conheço pouco sobre Teatro, ainda, por isso o cuidado em dizer as coisas), no sistema Coringa de Augusto Boal onde os atores revezam entre si os personagens, sendo portanto todos os atores todos os personagens, muitas vezes ao mesmo tempo. Os quatro que atuam nela por diversas vezes interpretam ao mesmo tempo Raul e Saul, numa alternância alucinada que cria, junto com a iluminação maravilhosa, um ambiente mágico e delirante, muito similar aos contos que li do Caio e ao mesmo tempo muito própria do espetáculo.
Outra coisa que contribuiu para esse clima construído nas cenas são as artes corpóreas: como que danças do corpo, porém sem ritmo, porque não se propunham exatamente como danças. Sendo mais objetivo: cenas coreografadas (ou previamente pré-pensadas – num sentido de uma organicidade fluida, talvez, permitindo-se pequenos improvisos, ou grandes, não sei, só eles sabem) onde a posição e o movimento dos corpos contribuem de forma muito mais nítida para uma criação poética: como a cena em que Raul e Saul abraçam-se com sofreguidão e amor ao perceberem a sua proximidade súbita.
Também foram felizes as inserções de trechos inteiros do conto na peça, em leituras algumas vezes narrativas, com uma voz exterior, e algumas vezes numa lucidez sincera onde não se identifica se dos personagens ou dos atores (acho que é difícil explicar isso para quem não viu a peça efetivamente, mas fica o relato da sensação). Quase o conto inteiro é lido, e isso é muito gostoso, e não pedante, como pode parecer, ou tedioso.
Há certa carga de sinceridade no espetáculo, tanto pela postura dentro e fora de cena (que muitas vezes se misturam, como em determinada hora na peça em que param o espetáculo pela metade para dedicar aquela apresentação a alguém): os integrantes pedem ainda para que cada um preencha uma ficha com suas impressões sobre o espetáculo, desejando assim ouvir criticas e opiniões sobre o que poderia melhorar na montagem da peça. A alternância entre os personagens e o cenário quase simples (quase porque não é um cenário que qualquer um conseguiria, mas não é demasiado caro para uma companhia) passam ainda essa proximidade desejada – acho – com a plateia, que ao inicio da peça recebe previsões de horóscopo, vê a preparação corporal (os tais exercícios de teatro com os quais não estou totalmente familiarizado), criando um ambiente de sinceridade que muito me agradou.
Acho essa sinceridade extremamente favorável à experimentação da arte, porque permite por parte de ambas as partes uma entrega muito bonita despejando objetividades e defesas no chão em prol de um pacto que se firma quando as partes são verdadeiras.
Não preciso dizer ainda que a atuação está deslumbrante. Não há muitas criticas: não que não haja o que melhorar, mas na entrega verdadeira a qual me permiti o que me interessa registrar são as coisas essenciais, o sentimento que a peça desperta de mais relevante: amor.
Obs: uma duvida para quem viu a peça: o Caio Fernando Abreu gostava do Nelson Rodrigues? Se sim, isso me soa muito estranho sabendo quem ele era e suas opiniões. Se não, esta seria a única critica: eu acho que vai um pouco contra o que o próprio Caio era.
Obs 2: para ler o conto, clique aqui.



































